segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ciência e Vida

Sou um homem da ciência e digo mais das ciências exatas, passei muitos anos firme nesse propósito, tinha resposta exata para tudo "minha ciência é mãe e ferramenta para outras ciências" a matemática é a verdade. Isso me satisfazia, um pesamento pra lá de aristotélico.

Agora, mais experiente, concordo com Rubem Alves, a matemática é fria e dura e em comparação com a vida quem é ela? para que serve? Há respostas nela para o sofrimento humano, para uma mãe que perde um filho, para um filho que perde sua mãe. Onde encontrar respostas?

Digo que hoje não busco mais respostas, mas busco conforto, conforto para um coração que sangra diante da vida dura, amarga e ingrata, para quem a matemática, ou melhor, as ciências se dobram e reconhecem sua inacreditável impotência.

Digo que busco o Deus, sem me preocupar em entender os números que regem sua infinita mente e sem nenhuma presunção de querer questioná-lo, pois mesmo que possa, não desejo.

Quero simplesmente experimentá-lo, pois sei que experimentando-o, faço parte dEle e sem perceber mergulho na mais profunda experiência e desejo humano de encontrar sua fonte eterna de vida, é como diz Tillich: "É como se uma gota de vinho caisse dentro de uma taça cheia de vinho", é o encontro, é o desejo, é a volição chamada amor que me faz achar o Verdadeiro Amor!

O Tempo e as jabuticabas

Reproduzo aqui um texto de Rubem Alves, que vale ler e reler:

"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver
daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela
menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela
chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir
quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos
para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem
para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir
estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões
 de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo
majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas
não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a
essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente
humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta
com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não
foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados,
e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.'

O essencial faz a vida valer a pena.
"